quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Da Ku Damm para o bloco de rua

O monitor parecia cada vez mais distante. Seus olhos davam sinais de cansaço, então, para descansar um pouco as vistas, Clara desviou os olhos da tela à sua frente, girou a cadeira e ficou observando a vista de sua janela: Ku Damm, ou Kurfürstendamm, o centro da antiga Berlim Ocidental, fervilhando com a hora do almoço, pessoas indo e vindo sem parar.

Seu aparelho de som estava ligado, músicas de casa, de uma eterna coleção que realmete parecia não ter fim, espetava os pen drives naquela caixinha e deixava o som rolar até a hora de ir embora. Tinha de tudo um pouco, do pinico à bomba atômica, como dizia um amigo da faculdade. A faixa musical muda e seus ouvidos percebem uma conhecida marchinha de Chiquinha Gonzaga:


Ô abre-ala
Que eu quero passá!
Eu vim de longe
Não posso negá

Ô abre-ala
Que eu quero passá!
Minha morena
Vou contigo estar

***
Sou do mar ê ê
Sou do mar ê a
Arreda, rapaziada
Meu cordão vai passá!
Sou do mar ê ê
Sou do mar ê a
Eu vim de muito longe
Eu não posso negá!
Sou do mar ê ê
Sou domar ê a
Lá vem mulata a bulir!
Eu sou de vatapá!
Sou do mar ê ê
Sou do mar ê a
Arreda, minha morena
Meu cordão vai passá!

“Cordão carnavalesco...” Pensou Clara e ali, vendo as pessoas zanzando de um lugar à outro da rua, lembrou-se dos blocos de rua do Rio de Janeiro, de quando seu pai à levava para fazer guerra de confetes com os amigos, fantasiada de índia, o rostinho moreno pintado, penas à cabeça... “Uma moleca que eu fui!”

Lembrou-se das visitas à concentração das escolas de samba no sambódromo, dos desfiles que viu, mas principalmente, dos blocos de rua que acompanhou quando jovem, pulando, curtindo a folia com as amigas, paquerando...

“Nada mais efêmero que um amor de carnaval!”

E seus pensamentos voavam perdidos entre pessoas fantasiadas, homens vestidos de mulher, mascarados batendo bexigas ao chão, capas tão longas que precisavam de apoios de bambu para abrirem como as de um morcego, além de pessoas alegres brincando com tudo e com todos.

_Sonhando acordada, Clara?

_Ach so! Nat, acho que viajei nos meus pensamentos, imagina que fiquei aqui olhando a rua e me lembrei dos blocos de rua do carnaval carioca?

_Você deve estar com saudades de casa, amiga, não vejo nada parecido com um bloco de carnaval lá embaixo! _Natalie disse isso colando a testa ao vidro da janela enquanto olhava para a rua.

_Tem razão, agora que você disse, realmente só tem um monte de gente branca como papel, indo e vindo, sem a menor graça...

_Olha que assim eu me ofendo! _respondeu a amiga, simulando uma reprovação.

_Ofende nada, sabe que adoro seu povo! Bem, vamos voltar ao trabalho, pois com ou sem samba, esse escritório precisa tocar seus projetos!

E as duas mergulharam suas mentes nos rabiscos que estavam tanto em papel quanto no computador.



Esta postagem está fazendo parte das Histórias de Carnaval

Um comentário:

E. Lauffer Zerfas disse...

É lindo Moço!
adorei !!!
Beijocas grandes!