sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O começo

O nervosismo da bela moça morena, sentada a uma poltrona Barcelona preta com um envelope nas mãos parecia estar disfarçado sob uma expressão delicada e gentil. Clara aguardava ser entrevistada para o que poderia ser seu primeiro emprego como formada.
Na sala mais quatro pessoas aguardavam, um rapaz de cabelos negros, duas moças loiras e outra com ares orientais.

Os nomes foram chamados um a um e Clara sabia que seria a ultima, apenas mais um longo período ocultando a tempestade emocional que se passava dentro dela. Não sabia quantas vagas estavam disponíveis, nem se aquela seria a única entrevista. Em sua mente mais um problema a corroia: era uma estrangeira com visto de estudante para só mais dois meses, esses que ela decidiu usar para procurar emprego.

_Frau Clara do Couto, bitte!

A vos da secretária a fez voltar à realidade.

Adentrou a um escritório muito arrumado onde o bom gosto imperava. Um homem de no máximo 40 anos aguardava à porta e a direcionou a uma das poltronas frente a sua mesa.

_Guten Tag!_ disse ele seguido da resposta de Clara.

_Antes de começarmos, gostaria de saber se a incomoda que a entrevista seja em português...

Meio surpresa com a pergunta ela demorou alguns segundos antes de dizer que não fazia objeção.

_Meu nome é Matheus Schineider e sou teuto-brasileiro, por isso falo português.
_Prazer Sr. Schineider.
_Igualmente Srtª do Couto.

A morena poderia imaginar tudo menos encontrar alguém que falasse português.

_Srtª do Couto, eu sou o diretor da Schneider Architektur und Partiner e temos 2 vagas para arquitetos. Você está aqui por ter sido selecionada após analise do seu currículo. Está de posse de algum portfólio?

_Sim, Senhor _ a moça entrega o envelope com seus trabalhos catalogados.

Matheus olha cuidadosamente e folheia as páginas do documento com atenção. Uma a uma as paginas são viradas, contudo o homem continua com a mesma expressão facial de quando clara entrou na sala, aliás ela não lembrou dele ter mudado de expressão até ele terminar de ver o portfólio.

Colocando o caderno sobre a mesa, Matheus olhou fixamente para Clara com a sobrancelha direita erguida, para então dizer:

_Conte como chegou até aqui!

A pergunta demorou alguns segundos para ser processada, pois ela quase respondeu que havia pego o VLT, mas então o sentido da pergunta se apresentou antes que de seus lábios saísse a gafe.

_Estudei alemão desde pequena, incentivada por minha tia, na verdade a esposa do meu tio, que tem descendência alemã. Quando terminei o ensino médio esta mesma tia me apresentou um programa de incentivo da Igreja Católica que dava bolsas de estudos para graduação na Alemanha. Após ser inscrita e ser uma das selecionadas, participei de entrevistas e fui uma dos 6 selecionados a estudar em Universidades de Ciências Aplicadas espalhadas pelo país.

Parando um pouco, como se tomasse fôlego ela continuou:
_consegui vaga na TFH-Berlin com abertura para fazer disciplinas complementares em outras Universidades da cidade, com isso, além de das disciplinas regulares da TFH, estudei Urbanismo na TU-Berlin, Artes na Kunstuniversität e línguas, alemão, italiano e russo, na FHTW-Berlin. Durante esse tempo participei de seminários dentro do país e exposições de trabalhos em parceria com a TFH. Estagiei em pequenos escritórios e agora pretendo trabalhar como diplomada.

Após um breve silêncio, que para Clara pareceu muito tempo, Matheus disse:

_Evidente que eu sei como você chegou até aqui. Todas as Univercidades que foram citadas por você são nossas parceiras, aliás, me admira Frau Kessler não ter te indicado para estágio aqui. Na verdade queria saber como era sua oralidade, apenas para me decidir. E já o fiz. Segunda você pode começar, o expediente começa às 9:00h, horário local, por favor... _e disse isso, finalmente sorrindo e estendendo a mão para a moça.

Clara apertou a mão do seu novo chefe com um sorriso iluminando seu rosto moreno. Agradeceu muito e o homem a acompanhou até a porta. Despediram-se e Clara fez o mesmo com a secretária.

Quando ganhou a calçada todo aquele misto de nervosismo, felicidade e sabe-se lá mais o que, explodiu em um grande grito e pulo de felicidade só sendo entendido em português:

_Consegui!

(continua)

Um comentário:

E. L. Zerfas disse...

Estou aguardando continuidade!!