terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Volei de sábado

Distraído com seu pensamentos, lá estava ele com seus 30 anos, de frente para uma bandeja com hambúrguer, refrigerante e batatas douradas. Nada saudável pensou, porém deu de ombros e continuou distraído com o aroma que vinha da comida.

As batatas eram saboreadas uma a uma, sem muita preocupação com tempo, apenas o prazer de comer a bela fritura. Um esbarrão ao seu braço e ele volta à realidade. Uma pessoa tentando passar por entre mesas pede descupas e o rapaz apenas acena com a cabeça.

Foi então que ele a viu sentar-se numa mesa um pouco a frente. Ana Lucia. Ela também acomodava uma bandeja similar à dele e começa a degustar do lanche., vestia uma camisa azul de botão sem estampas, uma saia comprida até os tornozelos, preta e frisada e calçava tênis que parecia um sapato de boneca.

O distraído e sonhador rapaz voltou no tempo, para seus 17 anos, quando seus sábados eram preenchidos com a companhia daquela mulher, então moça, que já conhecia tinha 2 anos.

Sábado era dia de aulas de vôlei mista na sede do clube perto de sua casa. Duas horas de prática, bom humor e energia dispersada. Mas não só isso era motivo para passar à tarde no clube, também tinha Ana Lucia. Ele a via chegar sempre de bicicleta. Os cabelos cacheados e compridos, sempre presos num rabo-de-cavalo. O uniforme vermelho sempre com o perfume de amaciante. As joelheiras já surradas pendiam sobre os pés e a bermuda azul, modelava suas curvas. A luz de seus olhos castanho-esverdeados sempre vinha acompanhada de um sorriso encantador e as sardas que marcavam de uma a outra de suas bochechas reluziam na pele branca da menina.

Ela encostava sua bicicleta ao muro e vinha para a quadra se juntar aos demais atletas.
Cumprimentos rápidos, abraços ligeiros, não se tinha muito tempo para conversar durante a aula, o professor logo vinha distribuindo bolas e formando duplas. Neste dia, ele fez dupla com ela. A atenção teve de ser redobrada para que não errasse por pura distração em ver a bela imagem de mulher perfeita e idealizada que trocava passes, cortes e manchetes com ele. “Coisas de menino”, pensou enquanto terminava de comer das batatas.

Uma hora de treino, uma hora de jogo, os mais velhos sorteavam e escolhiam os companheiros de equipe. No ultimo ano não se lembrava de ter ficado uma vez em uma equipe adversária de Ana e neste dia não foi diferente. Jogavam bem, pareciam feitos para esta equipe, a levantadora e o atacante, o bloqueador e a recepcionista. Ninguém queria separar os dois numa partida, pois seus pensamentos estavam alinhados e táticas eram resolvidas em segundos, onde um pensamento mais demorado significava uma bola perdida.

Comemorar um ponto resultado dessa parceria subentendida era o êxtase para o rapaz. A moça vinha em sua direção pulava em seu pescoço e este a segurava, o suor dos corpos e os perfumes que exalavam o deixava em segundos no paraíso, até mais algum membro da equipe juntar-se à comemoração. Como ele queria perpetuar este momento por puro egoísmo, todavia era impossível.

Jogo findado, a equipe em que eles jogaram, como quase sempre, venceu de novo. Um sorriso, era o premio pelo bom jogo. O sorriso iluminado pelos olhos e emoldurado pelas sardas, seguido de um até semana que vem. Ana Lucia montava em sua bicicleta e partia deixando para trás o sonhador arrumando a mochila e sem coragem de segui-la ou convidá-la para tomar um sorvete tão merecido.

Voltou à realidade quando já despejava o lixo dentro da cesta. Antes de ir embora, olhou novamente para a mesa da mulher, com seus cabelos negros, compridos e cacheados a volta do rosto. Os olhos castanho-esverdeados miraram-no e seu sorriso se abriu. Ela acenou para ele que retribuiu o cumprimento com outro sorriso e aceno.

Com o rosto ruborizado, ele se vira e sai da lanchonete sentindo-se como o adolescente de antes, perto da garota de sempre, que ele não conseguiu nada mais do que um sorriso.

Naldo Costa

2 comentários:

Cláudia disse...

Nós e nossas eternas lembranças de tempos de outrora...de "amores" não realizados...

Bonito iso. Me lembrou dos tempos de outrora...

Bjs carinhosos meu amigo.

oqueaconteceuhoje disse...

Quantas chances são perdidas pelo simples fato de não tentarmos não é mesmo... tudo por vergonha, falta de coragem e medo de um Não, que, de repente, seria um Sim! Quem sabe né!

Adorei!
Beijos!

www.oqueaconteceuhoje.wordpress.com