terça-feira, 14 de outubro de 2008

Sombras

Com uma capa de violão, negra, protegendo devidamente seu instrumento, a menina de saia esvoaçante, camisa branca de botão, cabelos negros com uma longa trança à suas costas e pele extremamente alva, carregava uma sacola de loja de conveniência, descendo a rua naquele início de noite.

Dobrou a esquina à direita e seguiu a passos largos e decididos, parando em frente a um belo jardim coberto de grama-amendoim onde o caminho até a porta do sobrado amarelo era demarcado por placas de pedra polida.

A garota segue pelas pedras, adentra a varanda para logo em seguida tocar a campainha.
A porta branca se abre e uma mulher aparentando estar na casa dos 40 anos, vestida com uma casaco comprido de tricô branco, camisa cinza sem estampas e uma calça também branca. Seus cabelos negros e cacheados repousavam sobre os ombros, sua pele era bronzeada e seus olhos castanhos fitaram a menina ao mesmo tempo que sorriu e disse:

_Boa noite Branca! Tudo bem contigo?
_Boa noite dona Marina! Tudo bem, sim e com a senhora?
_Na paz, venha, entre! Rafael está lá no quarto, pode subir!
_Ah! Obrigada!

Branca entrou na casa e seguiu pelas escadas de madeira. Ganhou o corredor, encontrou a porta do quarto de Rafael e bateu.

_Entre! _ disse o rapaz.
_Olá, meu anjo! Trouxe chocolate!
_Uma doce menina acompanhada do melhor dos doces? Será que mereço?_ disse Rafael ao se levantar de sua cama.
_Er... Não, mas ganha assim mesmo!
_Que lindo!

Eles se beijaram. Branca deu a sacola para o seu namorado, encostou o instrumento na parede e se jogou sobre o sofá que ficava de frente para o computador do rapaz.
Rafael colocou as barras sobre a pequena mesa ao lado do sofá para logo em seguida sentar-se ao chão à frente de Branca. A menina deslizou seus dedos alvos pelos cabelos negros do rapaz, acariciando com carinho e perguntou:

_Já terminou o site que precisa entregar amanhã?
_Terminei e já enviei o material para o cliente.
_Garoto eficiente! Fez os exercícios do pré?
_Sim, já tem meia hora...
_Hum! Então está livre para mim hoje?
_Sou todo seu!
_Assim eu acredito! Mas diga, qual o motivo de você estar deitado quando eu cheguei e não com os olhos grudados na tela do seu computador jogando alguma coisa?
_Ah, não estou em um dos meus melhores dias...

Branca parou o cafuné, inclinou-se em direção ao rapaz, seus olhos se encontraram.
_O que houve?
_Estou cansado da incompreensão humana!
_Sim, mas isso é um pouco vago, meu anjo, o que realmente te irritou?

Rafael desviou os olhos, fitou o nada por alguns segundos, voltou a mirar os brilhos de Branca e disse:

_As Pessoas são cruéis, desde o berço. Tendem a formar padrões e classificar tudo e todos. Formam círculos fechados e desprezam aqueles que não se encontram dentro de seus grupos, quando não se prendem a ridicularizar as diferenças, sem nem ao menos tentar entender o porquê delas existirem. Tudo no mundo tem uma razão de ser!

Branca continuou a fitar o rapaz esperando que com esse ato ele não parasse o seu desabafo. Rafael percebeu a intenção da namorada e prosseguiu:

_Estou cansado das mesmas piadas, “onde vai ser o velório?”, “lá vem o toquinho de carvão!”, “saia das trevas, venha para a luz!”, isso quando não me chamam de emo! Ah que grande merda! Na falta disso ainda tem o famoso: vejam aqueles garotos esquisitos que andam de preto! Qual o problema com as cores, ou falta delas no meu vestuário? Eu não tenho o direito de decidir sobre que tipo e forma de tecido devem cobrir meu corpo? O que agride tanto os outros na minha maneira de ser? Ofereço algum perigo para a sociedade?

_Ei, menino, calma! Sei tanto quanto você como tudo isso é irracional! Ou esquece que também sou trevosa?

_Não, amor, desculpa, só tava engasgado. Não desejo que ninguém passe a entender o que é sentir-me inserido numa sub-cultura, só queria um pouco de respeito em relação a isso.

_Todos queremos, mas deita aqui e apóia sua cabeça no meu colo, ficar nessa posição que estou não é muito confortável!

_Ah, sim, claro!

Rafael se levantou e logo deitou no sofá, apoiando a cabeça no colo da namorada, como ela havia pedido.

_Melhor assim! _disse Branca_ agora escute, menino: eu gosto de tocar musicas melancólicas que falam de pessoas mortas, ou exaltam os sentimentos perturbadores despertados pela paixão, contudo não toco apenas isso, pois sei que nem todos gostam do mesmo que eu, sendo assim, quando pego meu violão e sento na praça Corte Real, apenas deixo meus dedos percorrerem as cordas para somarem as notas de músicas conhecidas, MPB, Rock nacional, melodias que possa agradar a maioria das pessoas que param pra me ouvir, se eu não fizesse isso, seriam poucos os que me veriam tocar. Todos nós temos nossas esquisitices, infelizmente as pessoas temem o que não conhecem. Em nosso país não é comum ver um homem sair para uma festa usando uma saia, ou uma maquiagem, aceitar isso é complicado, existem muitos tabus e estereótipos. Realmente é cansativo conviver com esse tipo de comentários, mas precisamos lembrar que somos boas pessoas, vestidos ou não de pretos, onde a luz e as trevas se encontram como qualquer outra, então faça como eu, não ligue para os comentários e continue seu caminho!

O rapaz mirava os olhos da menina e disse:

_Realmente eu precisava ouvir essas doces palavras!

Ela se reclinou sobre o rosto do garoto e eles se beijaram calorosamente.

_Bem, agora deixa de pensar nisso! Pegue a pandeirola e vamos fazer um som lá na praça, Miguel, Karla, Lily e Marco irão pra lá!

Tudo bem! _ respondeu Rafael, levantando-se para arrumar as coisas e sair com Branca.Os olhos da garota seguiam o rapaz e seu coração batia em com ritmo de Nightwish.


Ps: Desabafo; o conto não saiu como eu planejava, ao longo desses dias aconteceu muita coisa e acredito que isso tenha afetado o rendimento do conto.



Pps: Hoje tive uma surpresa ao ler o blog da Tine e ver a postagem sobre o Blogcamp RJ. Ainda estou sem palavras!



Ppps: A ilustração para o novo capítulo do Portal do clérigo está pronta, na verdade está pronta desde a última postagem, pretendo escrever o novo capítulo ainda este mes!


Que a Paz e o Bem do Altíssimo caia sobre todos nós!

2 comentários:

E. Lauffer Zerfas disse...

Conto curto, mas profundo.
Bem sou suspeita pra falar. Não sou trevosa, mas acho q podemos usar o que nos agrada. Pena que não dá pra vir ao trabalho de short, chinelo e camiseta velha; pois senão viria assim todo dia enquanto estivermos no verão carioca!
beijos gulosos

Tine Araujo disse...

A opinião do autor ao conto não vale de nada! O artista está sempre insatisfeito e é dessa instisfação que nasce sua inpiração!

Não seja perfeccionista, Gabriel Garcia Marquez, quando enjoa de uma personagem faz ela sumir sacudindo lençois, sendo comida por cães e assim vai...

Conto é isso! Imaginação Criativa e Reveladora e isso tu tens de sobra!


Paz e bem ;)