O Tradutor Universal e os Mestres que Nunca Param de Ensinar

 

Peguei-me em devaneios sobre Star Trek. Em minha mente uma dúvida de como de fato funcionava a comunicação dentro da Frota Estrelar. Existiria um idioma comum da Terra? Todos dependeriam do Tradutor Universal? Ou cada oficial falaria sua língua materna enquanto a tecnologia faria o restante?

As possíveis respostas abriram mais portas. Possivelmente haveria um idioma comum após a unificação do governo no tempo depois da 3ª Guerra e de qualquer forma as pessoas ainda falariam suas línguas maternas e com o avanço da tecnologia e a liberdade de tempos de qualidade para a humanidade, pois a necessidade de explorar o homem pelo homem já fora abolida da existencia, muitas pessoas aprenderiam ou voltariam às origens linguísticas.

E em um mundo com uma União unida de planetas, imaginei um oficial brasileiro da Frota.

Em serviço, falaria o Standard da Federação (Uma espécie de língua comum, como o esperanto se propôs um dia). Em casa, português, talvez com um sotaque gaúcho herdado da família.

Outro oficial poderia falar português, uma língua de seu povo originário e ainda estudar klingon ou vulcano simplesmente pelo prazer de aprender. Afinal, numa sociedade em que a sobrevivência já não consome quase todo o nosso tempo, aprender deixa de ser uma obrigação e volta a ser um prazer.

Foi então neste ponto que compreendi uma limitação fascinante do Tradutor Universal: Ele pode eliminar a barreira da comunicação, entretanto jamais eliminará a necessidade de aprender uma língua. Porque aprender um idioma nunca significou apenas entender um aglomerado de palavras, significa compreender uma cultura através de sua oralidade, além de ser uma forma diferente de organizar o pensamento ou mesmo uma maneira própria de rir, de rezar, de amar, de fazer poesia… Existe muita vida em um idioma e não é à toa que ele se modifica com o passar do tempo, marcando a forma como as pessoas veem seu mundo em cada época!

Neste dançar de perguntas, respostas e novas perguntas,peguei-me lembrando de uma frase que ouvi muitos anos atrás, durante minhas aulas de alemão, minha professora, Frau Denke, costumava citar Goethe:

Wer fremde Sprachen nicht kennt, weiß nichts von seiner eigenen.

"Quem não conhece línguas estrangeiras nada sabe da sua própria."

Na época, achei a frase bonita, com uma sonoridade impactante e claro, instigante. Ela plantou a semente que me fez perceber, depois de ter estudado alemão, o quanto ela é inevitavelmente verdadeira. Foi aprendendo outra língua que comecei, pela primeira vez, a enxergar o português.

Percebi sua musicalidade. Sua liberdade. Suas ambiguidades. Suas delicadezas. O alemão não substituiu minha língua materna, ele me ensinou a vê-la.

Talvez seja esse o verdadeiro papel de qualquer idioma: não nos afastar de quem somos, mas ampliar nosso olhar sobre aquilo que sempre esteve conosco.

Enquanto minha mente viajava nisto, outra lembrança surgiu: Frau Denke não foi apenas minha professora de alemão, ela foi também minha professora de Gestaltung e foi dessa forma que a arquitetura se apresentou com outros olhos para mim. Dentro dessa disciplina, ela me presenteou com algo que guardo até hoje: um pequeno retalho do tecido utilizado no envelopamento do Reichstag, em Berlim, durante a histórica intervenção artística de Christo e Jeanne-Claude. Essa mulher foi uma senhora Mestre!

Durante muito tempo pensei naquele presente apenas como uma raridade, hoje o vejo de outra forma, me é uma relíquia.

Mari, certa vez me disse:

"Ela deve ter visto algo em você para entregar uma lembrança que tinha tanto valor para ela."

Gosto de pensar que sim. Esse retalho eu decidi que não ficaria escondido numa gaveta. Eu o emoldurei com um rascunho da obra, fotografias do Reichstag durante a intervenção e depois da sua restauração. O impacto foi tanto que eu fiz um artigo cientifico sobre o tema e o apresentei em um congresso internacional. Hoje este quadro repousa junto a fotografia da minha própria formatura, sobre minha mesa.

Não como um troféu.

Mas como uma presença.

Ele me acompanha enquanto trabalho, escrevo, estudo e crio.

Às vezes penso que a Frau Denke nunca deixou de me dar aula. Mesmo depois dos e-mais perderem a frequência, sua presença ainda está vívida, apenas mudou de lugar. Foi dessa forma que percebi algo sobre minha própria trajetória, durante muitos anos também fui professor. E lembro com enorme carinho da despedida que recebi na última formatura em que participei, em 2017. Na época, fiquei profundamente emocionado com as palavras a mim direcionadas. Hoje me pergunto se aquele carinho não dizia respeito apenas às aulas que dei, mas ao conjunto de uma convivência de 3 anos que construímos juntos. Porque talvez seja isso que diferencia um professor de um mestre (sem muita pretensão da minha parte). O professor transmite conteúdo. O mestre transmite uma maneira de olhar o mundo.

Os anos passam. As salas mudam. As pessoas seguem suas vidas, mas, de repente, um ex-aluno lê um livro e lembra de uma aula, escuta uma música e recorda uma conversa ou aprende outra língua e compreende, enfim, uma frase que ouviu muitos anos antes.

É nesse instante que o mestre volta a ensinar. Sem estar presente. Sem sequer saber.

Curiosamente, tudo isso começou na agitação das abas abertas em minha mente, sobre um Tradutor Universal e terminou me lembrando de algo muito mais importante: A tecnologia pode traduzir palavras, mas são os mestres que nos ensinam a compreender pessoas.

Talvez seja por isso que eles nunca deixam verdadeiramente a sala de aula, eles apenas continuam suas aulas em uma sala bem confortável em nossa mente.

Naldo Coßta


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